
A obra de Lewis Carroll esteve quase sempre presente na vida de Adriana Peliano, mas se intensificou quando ela percebeu que seu maior desejo era ilustrar “Alice no País das Maravilhas”. O resultado disso surgiu na década de 90 com o trabalho de ilustrações “Alicinações” apresentado na semana de comemoração do centenário de Lewis Carroll em Oxford/UK em 98. Designer e artista plástica, Adriana já ganhou o prêmio Jabuti em 2006 pelo projeto gráfico do livro ‘A costura do invisível’ sobre o desfile de papel realizado no SPFW/2004, desenvolve oficinas e workshops tendo como tema “Alice no País das Maravilhas” e fundou a Sociedade Lewis Carroll do Brasil. Abaixo na entrevista, entre outras coisas, Adriana falou sobre a influência da obra de Lewis Carroll em sua vida.
1 – Como foi seu primeiro contato com a obra “Alice no País das Maravilhas” de Lewis Carroll?
Que eu me lembre comecei assistindo o desenho da Hanna-Barbera. É uma adaptação livre que mistura as estórias de Alice, onde participam personagens como Fred e Barney e a Alice cai dentro da TV ao invés da toca do coelho. Assisti a esse desenho centenas de vezes. Quando fiz doze anos fui à Disney e comprei um gato de Cheshire de pelúcia, meu primeiro item de coleção. Anos mais tarde fui a uma exposição de ilustradores de Alice. Fiquei tão encantada que quando saí de lá pensei assim: O que eu mais quero fazer na vida nesse momento? E a resposta veio clara: Ilustrar o livro de Alice. Foi quando eu mergulhei nessa aventura que vivo até hoje. O poço de Alice nunca tem fim.
2 – O que a levou a formar a Sociedade Lewis Carroll do Brasil? Existem outras sociedades espalhadas pelo mundo e há uma troca ou encontros entre elas?
Existem várias Sociedades Lewis Carroll espalhadas pelo mundo. A mais antiga é a inglesa, mas existe também a japonesa, a americana, a canadense, a australiana e talvez outras mais. Sou da Sociedade Inglesa desde 1998, quando fui à Oxford no centenário da morte do autor, num evento que foi realizado na mesma universidade onde ele viveu. Cada Sociedade promove seus encontros e edita suas publicações. Evidentemente mantemos contato e trocamos informações. Já temos membros da Holanda, Inglaterra, Estados Unidos e Japão. Entre eles estão importantes colecionadores, e também o presidente da Sociedade Inglesa. Quem quiser pode participar sem nenhum custo, o objetivo é criar uma rede de contato e a partir daí dar novos saltos no impossível.

3 - O que você achou da versão de Alice filmada por Tim Burton?
Não gostei nada do filme. Pra ser sincera acho muito sem graça, chato até. Acrescentou muito pouco ao universo deslumbrante de releituras disponíveis desse clássico da literatura. Tim Burton distorceu o espírito da obra em nome de clichês de filme de fantasia. É um filme linear, moralista e maniqueísta, enquanto Alice subverte tudo isso. Acho sinceramente que Tim Burton não tem nenhum amor especial pelo livro, ele foi apenas pretexto para contar outra estória. O que eu achei mais legal no filme foi o que ele não mostra mas que sugere e estimula. Ou seja: o filme despertou tanto interesse pela obra que abriu caminhos para novas descobertas além dele. Crítica de Adriana sobre o filme.
4 – Há milhares de produtos vendidos relacionados com a obra de Lewis Carroll, qual foi o que mais te surpreendeu ou chamou sua atenção?
O que eu mais amei foram as jóias. O colar de xícaras do Tim Binns, os anéis de gato, cogumelos e pássaro da H. Stern e em especial, os delírios surreais de Alidra Alic. Esses são objetos de desejo quase inalcançáveis.
E recomendo o livro da Kátia Canton que ilustrei, “Lewis Carroll na Era vitoriana”. As ilustrações foram feitas com colagens criando hibridismos entre as ilustrações clássicas de Tenniel e a história da arte. Já estou com dois outros livros ligados a Alice para serem publicados.
5 – Um dos trabalhos desenvolvidos pelos alunos do IED que será exposto durante a Virada Cultural foi resultado de um workshop ministrado por você. Os alunos geralmente conseguem surpreendê-la e mergulham no universo de Alice?
Geralmente me surpreendo nas oficinas, o que é um grande desafio. A proposta do trabalho é não se limitar a uma ilustração literal das estórias de Alice, mas embarcar em uma viagem pessoal e subjetiva buscando investigar como a obra interage com o imaginário de cada um. Dessa cartola não saem só coelhos brancos mas diversas relações inusitadas, alicinações e milmaravilhas (uma palavra criada por Guimarães Rosa).

Para obter mais informações e conhecer o enorme material de pesquisa de Adriana Peliano acesse os blogs sempre atualizados por ela: alicenations, brasillewiscarroll e alicequem
Rubens Beghini
Tags: Design, Design Gráfico, Produto




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